Perdi-te algures entre a sede de te ter
e os amúos desmedidos por te não ter,
Algures entre a intensidade de te querer
e o azedume de não me quereres...
Perdi-te, sei-o agora,
como uma neblina que se fez dia, como uma aurora que cresce...
Fez-se luz....
Sinto na pele que o arrepio que me provocas se esvai no olhar que fixas..
Sinto que a minha lembrança se desencontra da tua, cada vez mais segura de outras paragens..
Perdi-te e esta realidade consome-me os dias de desnorte, entre visitar as tuas fotos, visitar as tuas palavras, os sítios onde deixaste marca.
Perdi-te, não sei para quem, mas perdi-te porque nunca te tive...
Perdi-te porque sou demasiado original para que gostes de excentricidades.
Perdi-te porque nasci fora da formosura, cresci ao lado da beleza, nadei sempre ao largo do charme, nasci incapaz para a sedução.
Perdi-te também porque te cansei, instaurei em ti um tremendo cansaço, de formas demasiado atrevidas, de investidas demasiado opulentas, excedi-me.
Perdi-te porque te amei sempre demasiado, até ao último traço da bateria, até ao último folêgo de um respirar j+a por si saturado. Amei-te em demasia, deixei verter o copo do afecto, deixei transbordar a mala da atenção, permiti que afogasses o ego na minha estima...
Deixei-te conhecer-me demasiado e foi aí também que te perdi, deixei-te alcançar o cais mais recuado, a sobra mais escondida, o segredo mais bem guardado.
E foi aí que te perdi também, vivendo demasiado o que racionavas a tranches de convivio, sem nunca te teres mostrado, sempre longe: um dia partírias sem mais cuidados, a seco, sem trabalho.
E foi assim que te perdi, deixando-te escapar em cada foto, permitindo a fuga em cada silêncio, relaxando a porta em cada palavra, baixando a guarda a cada medo de te perder.
E perdi-te, quando deixaste de me ligar, quando deixaste de me escrever, quando deixaste de te mostrar, quando deixei de conseguir sentir-te, como vidente dos teus acessos.
Sei agora que te perdi, na coloração que tudo assume, no vento que nenhum cheiro me entrega, nas palavras que não me chegam, no teu pensamento que não me lembra.
Sei, agora, que te perdi, e é triste saber-te perdido de mim, sem arrependimento. Perdi-te, não sei onde.
Talvez nunca te tenha tido...
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